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E se não houvesse amor?

Listening to Sarah McLachlan – Angel

O post de hoje é muito pessoal e literalmente uma sessão terapia pra mim. Então pra quem não se interessa por essas questões muito íntimas, sinta-se livre pra não ler. No offenses taken. Eu sei que tenho umas posturas MUITO polêmicas… alguns inclusive diriam “problemáticas”. Então se quiser instaurar um debate, fique à vontade. Estou aberto a novas propostas, hehe.

Você nasce naquele ambiente todo especial de carinho e zelo sem fins. Não creio, de verdade, que exista amor nesse ponto ainda. Afinal, ainda que você seja aquela gracinha e tenha se desenvolvido dentro de sua mãe e perto do seu pai, você é uma alma desconhecida, um completo estranho pra todos que vão conviver contigo. O amor nasce da convivência, do cuidado, da preocupação (alguém aí já reparou que o amor só surge quando há alguma forma de sacríficio em relação à pessoa amada? Ótimo tema pra posts futuros. hehe), e tirando os acompanhamentos pré-natais, sua mãe/pai não tiveram um contato tão profundo assim com você.

À medida que você cresce e se desenvolve, aí sim o amor entra em cena. Parece até natural que se os seus pais te amam, você os ama de volta. Ninguém pára pra pensar que esse amor, tão puro e sublime como o amor dos pais aos filhos e dos filhos aos pais, é construído com o tempo e a convivência. Mas e se essa construção não acontece?

Vamos analisar do princípio. Particularmente, acredito que cuidar BEM dos filhos é um dever, uma obrigação dos pais. A escolha deles estava em evitar que este filho fosse concebido (entenda-se encontro de óvulo e espermatozóide), mas a partir do momento em que isso ocorre, eles estão terminantemente vinculados à boa criação daquele ser. Não há nenhum tipo de favor nisso. Pais que não desempenham bem essa tarefa por razões egoístas pagarão por isso no tempo devido. A parte em que entra o favor é justamente do amor. O amor que se dedica aos filhos, isso sim é facultativo. E é isso que faz a diferença entre um “pai” e um “mantenedor”: ambos executam bem a tarefa de sustentar alguém, mas só um deles investe amor na relação.

Falei isso tudo pra dar o meu testemunho agora. Foi recentemente que eu percebi que o meu pai é um mantenedor. Não sei o motivo, afinal ele é bastante carinhoso com meus outros irmãos. Imagino que, inconscientemente, ele saiba que eu seja gay há muito tempo, e por isso foi se afastando. Mas é só um palpite. Ele nunca faltou com suas obrigações: sempre me manteve muito bem, me alimentou e educou adequadamente, enfim, financeiramente ele sempre esteve e está presente. Porém, sua participação na minha vida termina por aí. Ele nunca fez nada que inspirasse amor… nem ao menos simpatia pela sua pessoa. Sou grato a ele, com certeza. Ainda que ele não tenha feito mais do que sua obrigação, eu sei quantos há por aí que nem a isso se prestam. Só que este é o sentimento que eu tenho por ele: gratidão. E gratidão não é amor. Claro que ele pode contar comigo sempre que precisar, mas ele não goza de nenhum respeito além daquele devido a todo e qualquer ser humano.

Além dessa falta de troca de carinho entre nós, a personalidade dele é extremamente incompatível com a minha. Ele faz coisas que me incomodam profundamente, coisas que uma pessoa dita “adulta” já deveria ter sob controle. Ele é extremamente explosivo, mimado, egocêntrico, ignorante em certos aspectos, teimoso e parece que não possui autonomia alguma sobre suas emoções. Não faz o perfil de alguém que eu gostaria de ter como amigo.

Como não foi construída essa relação de afeto entre nós, parece lógico que não haja amor da minha parte para com ele. Pais não são pais eternamente. A partir do momento em que você se torna independente, eles se tornam amigos. Ainda que você dê mais valor às opiniões deles e reserve uma parcela maior de estima, eles só gozam dessa posição privilegiada porque você permite. E permite porque, provavelmente, eles fizeram por merecer essa oferta de carinho. No meu caso, não percebo esse merecimento do meu pai. Nós coabitamos o mesmo lugar, mas somos completos desconhecidos. E, sinceramente, não vejo motivos para mudar essa situação.

O que me deixa intrigado nisso tudo é que parece ser o caminho natural essa ausência de amor filial, tendo em vista o relacionamento que foi estabelecido entre nós. Não sinto culpa ou remorso, nem ódio, raiva ou desprezo. Na verdade, não sei se sinto falta dessa presença paterna ou se algo poderia ser diferente caso “tudo fosse diferente”. Talvez eu tenha me acostumado a vê-lo como apenas fornecedor material do meu crescimento, enquanto minha mãe ofereceu o elemento afetivo.

Maybe I’m wrong… am I? 

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